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Estresse pode causar síndrome de ovários policísticos, aponta estudo

13/03/2008
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A síndrome de ovários policísticos, problema que afeta aproximadamente uma em quinze mulheres em idade reprodutiva, pode ser causada pelo estresse, segundo estudo realizado na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, que será publicado na revista norte-americana "Endocrinology".

A experiência foi feita com ratas expostas ao estresse causado pelo frio. As fêmeas foram submetidas à temperatura de 4ºC por três horas diárias, durante oito semanas. O estímulo provocou o aumento da secreção de noradrenalina, um dos hormônios responsáveis pela comunicação entre os neurônios. A elevação, por sua vez, levou à concentração de hormônios femininos (estrógenos) e masculinos (andrógenos) nos ovários e a conseqüente produção de cistos.

Mulheres com a síndrome costumam apresentar alterações menstruais, acne, crescimento excessivo de pêlos e obesidade. O problema também pode causar infertilidade, já que a ovulação é comprometida, e aumentar o risco de diabetes e problemas cardiovasculares.

"A experiência também mostrou que, se a atividade noradrenérgica das ratas expostas ao estresse for diminuída, o quadro de infertilidade não se instala", afirma Janete Anselmo Franci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNec) e coordenadora de um grupo de estudos na USP que investiga os efeitos do estresse sobre o sistema reprodutor feminino.

Para comprovar que o aumento de noradrenalina no cérebro era realmente a causa das alterações no ovário, os pesquisadores lesionaram o principal grupo de neurônios que produzem o hormônio e então expuseram as ratas ao mesmo modelo de estresse. O resultado foi que as cobaias não desenvolveram ovários policísticos, assim como o grupo de controle.

A descoberta pode levar a novas abordagens de tratamento da síndrome. "Mulheres que sofrem de estresse e que por isso têm uma atividade noradrenérgica aumentada poderiam se beneficiar de tratamentos para redução da ansiedade, como uma terapia de apoio ou mesmo com medicamentos que diminuam a liberação deste neurotransmissor", explica a pesquisadora.

O estudo foi tese de mestrado do pesquisador Marcelo Picinin Bernuci e teve apoio da Fundação de Amparo e Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Cérebro e fertilidade

A infertilidade feminina pode ter inúmeras causas, como anatômicas (alterações no útero, trompa ou ovário), ou ligadas à secreção de hormônios pelo ovário e pela hipófise, glândula localizada no cérebro que regula a função ovariana e de outras glândulas.

A dificuldade para engravidar ainda pode ser gerada por disfunções na atividade dos neurônios que coordenam todo o processo de ovulação. "Essas alterações são mais difíceis de ser diagnosticadas e têm mecanismos ainda pouco conhecidos", ressalta a professora da USP.

Segundo ela, dezenas de trabalhos já mostraram que é necessário um aumento de liberação de noradrenalina no cérebro no período que precede a ovulação. "Se há algum problema que impede a liberação do neurotransmissor, a ovulação pode não ocorrer", diz.

Outro estudo conduzido por sua equipe avaliou em ratas os efeitos do estresse provocado pela separação materna. Cerca de 80% das fêmeas submetidas ao experimento ficaram inférteis quando adultas. As ratas também não exibiam comportamento sexual na presença do macho, não ovulavam e não apresentavam um pico de secreção dos hormônios que induzem a ovulação.

A conclusão da pesquisa foi que o estresse constante nos primeiros tempos de vida causou danos cerebrais de forma que a atividade noradrenérgica foi menor e insuficiente para induzir a ovulação.

"Por outro lado, se a noradrenalina for liberada de uma forma constante e em quantidades maiores que o normal, a ovulação também não ocorre", diz a pesquisadora.

Franci explica, ainda, que o sistema reprodutor feminino pode ser ativado em uma situação de estresse agudo, mas para que isso aconteça são necessárias condições extremamente específicas. "Em um caso de estupro, por exemplo, o estresse produz uma descarga de noradrenalina no cérebro, o que pode induzir a ovulação se o sistema nervoso estiver preparado para deflagrar o processo. Isso poderia explicar por que o índice de gestação em mulheres violentadas sexualmente é maior do que o observado em casais com vida sexual normal", afirma.

Tratamentos de Fertilização

Quem já fez tratamentos para engravidar sabe o quanto a experiência pode causar angústia e ansiedade. Para piorar, o próprio estresse pode prejudicar o tratamento. "Quando as mulheres se desligam um pouco da obsessão por ter um filho, ou mesmo depois de adotar uma criança, a gravidez pode acontecer com mais facilidade", acredita a bióloga Janete Anselmo Franci, professora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora de um grupo de pesquisas que avalia o efeito do estresse sobre o aparelho reprodutor feminino.

Foi o que aconteceu com a paulistana Patrícia Nunes Zambon, de 35 anos. Ela e o marido procuraram uma clínica de reprodução assistida após cinco anos tentando engravidar. Ela tinha a trompa esquerda obstruída e o marido, baixa contagem de espermatozóides.

Os primeiros resultados da fertilização in vitro foram difíceis de enfrentar. "Na primeira tentativa, eu pensei que estava grávida, mas não estava. Depois, perdi um bebê com 20 dias", conta.

A experiência abalou bastante o casal. "Tentava focar no trabalho, mas aquilo se torna uma fixação. Mesmo na hora de fazer amor você perde o prazer, porque o objetivo se torna o foco o principal", relata. Para recuperar o equilíbrio, ela e o marido decidiram "dar um tempo". Só depois de um ano é que voltaram à clínica para repetir o procedimento, desta vez bem-sucedido.

Dois anos depois, mais tranqüila e sem expectativas de ter outro bebê, ela conseguiu engravidar naturalmente do segundo filho.

A história do casal mostra o que os médicos constatam diariamente dentro dos consultórios: o estresse pode dificultar (e muito) a vida de quem quer ter filhos. "Mulheres sob regime de estresse podem ter a menstruação suspensa, mas antes disso acontecer elas já deixam de ovular", explica o especialista em reprodução humana Alfonso Massaguer, da clínica Huntington.

O médico afirma que a abordagem multidisciplinar, que inclui suporte psicológico e mudanças no estilo de vida, pode aumentar bastante as chances de sucesso em tratamentos de fertilização.

Os sinais do estresse, segundo Massaguer, são muitos: herpes, gripe e acúmulo de gordura abdominal, entre outros. "É preciso examinar o casal como um todo", afirma. E, como ele lembra, não adianta as pessoas ficarem dizendo que "é só relaxar que engravida". Isso só faz o estresse aumentar ainda mais.

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